Birth of a Dragon: quase uma comédia

Para aqueles que gostam de artes marciais e de ícones do cinema como Bruce Lee, o filme Birth of a Dragon pode parecer interessante. Com lutas impressionantes e que foram divulgadas muito bem nos trailers, o filme tinha o potencial de entrar para a história do gênero. Porém, a produção infelizmente falha em tantos níveis que fica difícil dar qualquer seriedade a ela.

O longa começa com um letreiro que indica que a obra foi inspirada em uma luta real e misteriosa entre Bruce Lee e Wong Jack Man, um monge que ensinava T’ai chi ch’uan em Shaolin e que depois se mudaria para San Francisco, onde um dia iria encontrar Bruce Lee. Mesmo se protegendo contra críticos e historiadores quando indica que o enredo é apenas “inspirado” nesta luta, o filme acaba indiretamente informando (mesmo que sem querer) que seu estilo será realista, algo que é desmentido a cada cena. Isto tudo é tristemente complementado com uma falta de sensibilidade do que o público quer ver quando a figura de Bruce Lee aparece nas telonas.

O filme, dirigido por George Nolfi, parte de uma premissa interessante, aparentemente tentando desvendar aquilo que ocorreu nos bastidores da luta. Bruce Lee, interpretado por Philip Ng, é um personagem que começa carismático tanto pelos movimentos ágeis de um grande lutador como por sua personalidade brincalhona e confiante. As lições que dá aos estudantes, especialmente a Steve Mckee, interpretado por Billy Magnussen, vão além de artes marciais e mostram alguém não somente interessado em sua carreira, mas também na vida pessoal de seus alunos.

Porém, tudo munda quando Wong, interpretado por Yu Xia, aparece. Com seu estilo nobre e altruísta, sua personalidade mais serena contrasta fortemente com a de Bruce Lee, que daí por diante somente quer aparecer como estrela de cinema. Mesmo com toda a publicidade do filme que coloca Bruce Lee como figura central da obra, fica claro que Bruce é um personagem secundário e cheio de si, e que não é tão talentoso quanto Wong – um erro grave para os fãs de Bruce Lee (o personagem Wong é listado em primeiro lugar na lista de elenco do IMDb, mostrando sua importância no filme).

Para piorar, a luta entre Lee e Wong acaba se tornando secundária quando Steve, aluno de Bruce, se apaixona por uma mulher que trabalha como escrava para a máfia chinesa de San Francisco. É a tentativa de salva-la que faz com que todos os pontos do enredo aconteçam (tanto a luta entre os dois lutadores famosos, pois a máfia queria lucrar com apostas no duelo, assim como a amizade clichê e batida entre os dois). Em outras palavras, personagens fictícios acabam sendo mais importantes do que a luta real.

Como se isso já não bastasse, a famosa luta surpreende qualquer um, só que pelos motivos errados. Quando parecia que os dois personagens já haviam mostrado todas as suas habilidades, Wong salta de uma grande escada e, ao invés de cair no chão, flutua como se fosse uma pena, seguido por Bruce, que consegue fazer o mesmo. A partir daí qualquer mágica pode fazer parte do filme que, sem qualquer razão, começa a misturar fantasia e ação em uma obra que parecia ser séria.

No final, o filme pode irritar por interpretar Bruce Lee de maneira negativa, frente ao Chinês tradicional Wong, e conter cenas difíceis de acreditar. Porém, ele ainda pode entreter se assistido como uma comédia sem nenhum compromisso com a realidade.

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